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quinta-feira, janeiro 8

O Diário Digital Errou
Na sequência do post anterior recebemos o seguinte e-mail de Vital Moreira:

"Prezado Nuno Guerreiro
Tem toda a razão. Errei, embora sem intenção, tendo confiado no Diário Digital, sem controlo da fonte (mas já vi que devia tê-lo feito...).
Já fiz a correcção do Causa Nossa. Obrigado pela sua pertinente observação e pelo tom do seu post.
As melhores saudações
Vital Moreira"
A rectificação pode ser encontrada no post seguinte do Causa Nossa, um blog que começa a ser uma referência na blogosfera lusa. Incontornável e, fica agora provado, dialogante.

 Vital MoreiraVital Moreira Errou

No Causa Nossa, Vital Moreira escreveu uma entrada sobre o conflito israelo-palestiniano intitulada Crimes de Guerra, baseada integralmente – acredito que de forma totalmente inadvertida – numa notícia falsa.
Para ancorar o seu post, Vital Moreira cita esta notícia do Diário Digital – que na essência é um exemplo acabado de jornalismo vesgo e absolutamente incompetente. Um exercício de “pick and choose” com uma péssima tradução de um telex. Para comprovar o erro crasso da “notícia” citada basta ir aqui e ler a versão de um telex da AFP reproduzido pelo Khaleej Times, um jornal dos Emirados Árabes Unidos (que pode ser acusado de tudo menos de fazer favores a Israel). O Diário Digital traduz “the troops opened fire” por “soldados israelitas incendeiam campo de refugiados em Rafah”... O erro pode ser confirmado com a leitura de outra notícia sobre o mesmo caso (Israel troops kills Palestinian in Rafah) no HiPakistan.com, um site paquistanês. “Fazer fogo” e “lançar fogo” não são, nunca foram e nunca serão a mesma coisa.
Além de totalmente incompetente na tradução, o(a) jornalista do Diário Digital revela-se também desleixado(a) com os factos envolventes: “According to the sources, the man was killed during an exchange of fire between IDF troops and armed militants in the Tel Sultan neighborhood close to the Egyptian border”, lê-se ainda no diário israelita Ha’aretz.
A morte de alguém, ainda por cima nestas circunstâncias, é sempre um acontecimento arrepiante e aterrador e nunca pode ser minimizada. Mas o que estou aqui a discutir são os factos, o mau jornalismo e a diferença entre dois “fogos” semanticamente inconciliáveis.
A ocupação e as suas nefastas consequências – no que toca aos direitos humanos e não só – são factos inegáveis que, por isso mesmo, merecem ser discutidos e analisados com base num jornalismo responsável.
Para que conste, acredito plenamente que Vital Moreira errou sem a mínima noção de que o fazia. Aliás, admiro-o por ser um homem frontal, com quem tendo a concordar quase por regra – como aconteceu nos últimos dias com a polémica que tem travado em torno dos véus islâmicos em França (ver o meu post sobre o tema, O Véu, o Kippah e a Cruz, de 12 de Dezembro).
Resta dizer que não sou um “fã de Sharon", bem longe disso, e não estou com isto a defender o que sempre achei, e continuarei a achar, indefensável. Basta uma passagem de pelos links à esquerda, e pelos posts passados, para perceber de que lado está o autor deste blog. Sou de Esquerda. Nunca o escondi. E de Esquerda sou também na questão do conflito israelo-palestiniano. É por isso que me custa profundamente que a Esquerda europeia prefira elogiar a “obra social” do Hamas a apoiar abertamente – com palavras e actos – a Esquerda israelita (e não estou a falar apenas dos Trabalhistas), num jogo de manicaismos, silêncios e ataques que solidifica a cada passo a posição de Ariel Sharon. Como nós portugueses sabemos bem por causa própria (e nossa), o grito de “orgulhosamente sós” sempre funcionou como arma eficaz de propaganda.

Porque te Assustas?

Maimonides, Mishneh Thorá, Lisboa, 1472. Harley MS 5698, f.12r. Colecção da British Library
Porque tens cuidados e te assustas, alma minha?
Fica queda e permanece onde estás.
Porque o mundo para ti é pequeno como uma mão
tu, minha tempestade, não irás longe.

Melhor do que caminhar de corte em corte
é sentar perante o trono do Senhor:
se te distanciares dos outros florescerás
e seguramente verás tua recompensa.

Se o teu desejo é como uma cidade fortificada,
com tempo um cerco o fará desmoronar:
Não tens porção para ti neste mundo,
acorda então para o mundo que ai vem!


Original do poema em hebraico

Solomon Ibn Gabirol, poeta medieval judeu da Andaluzia (c. 1021-1058).
Ilustração: Fólio de Mishneh Thorá, de Maimonides, copiado e iluminado em Lisboa, em 1472. Colecção da British Library.

Antisemitismo e Sondagens
Eurobarómetro: Como Influenciar Sondagens
No País Relativo Pedro Machado escreveu um texto bem interessante sobre a polémica que estalou entre o comissário europeu Romano Prodi e os presidentes do Congresso Mundial Judaico, Edgar Bronfman, e do Congresso Judaico Europeu, Cobi Benatoff, da qual demos conta em dois posts anteriores (aqui e aqui). Reconhecendo a necessidade de combater o antisemitismo, Pedro Machado insurge-se contra o artigo de opinião assinado pelos dois líderes judaicos no Financial Times (que reproduzimos aqui na íntegra), classificando-o como uma oportunidade perdida. Mas a minha intenção não é rebater a opinião do Pedro sobre a carta, apesar de não concordar inteiramente com ela. O que me leva a escrever prende-se com a recorrente questão da polémica sondagem Eurobarómetro, publicada em finais de Outubro. Diz o Pedro:
(...)Depois, o famigerado Eurobarómetro: que os cidadãos da União Europeia considerem que Israel é a maior ameaça à paz mundial são resultados de uma sondagem. Podem considerar-se injustos, incorrectos, o que se quiser. Mas que queriam os líderes judaicos? Que a esses fosse dado o mesmo destino daquele dado ao estudo? Ou seja, cancelar a publicação dos resultados? Afinal, em que é que ficamos? A censura seria a boa receita para estes, mas a abjecta solução para aquele?

Entre aqueles que fazem pesquisas de opinião pública há uma expressão bem interessante que reza assim: se não gostas dos resultados, faz outra sondagem. Quem alguma vez lidou com sondagens sabe como é fácil manipula-las, muitas vezes apenas com a simples formulação da pergunta – basta ver a polémica que rebenta cada vez que se pensa em fazer um referendo...
A questão da sondagem do Eurobarómetro levantada pelos dirigentes do CMJ e do CJE no citado artigo do Financial Times tem a ver, entre outras coisas, com os critérios da amostragem. De entre os países escolhidos (como?) para figurar no questionário – Israel, Estados Unidos, Irão, Coreia do Norte, Afeganistão, Paquistão, Síria, Líbia, Arábia Saudita, China, Índia, Rússia e Somália –, Israel é aquele que tem maior exposição mediática negativa nos media europeus, numa proporção talvez apenas comparável à dos Estados Unidos. Não admira, por isso, que Israel (59%) e os Estados Unidos (53%) tenham aparecido à cabeça dos resultados como “as maiores ameaças à paz mundial”. Ainda por cima, os inquiridos podiam escolher mais do que um país. Não é preciso nenhuma pós-graduação em estatística para perceber a palermice de tudo isto.
Respondendo ao Pedro Machado, a censura nunca é solução para nada e duvido que essa leitura possa ser feita, mesmo de forma implícita, no artigo de Bronfman e Benatoff do FT. Em vez de cancelar a publicação dos resultados, a sondagem devia ter sido feita, logo à partida, de uma forma honesta. Como? Sem listas, deixando os países alvo à escolha plena dos inquiridos, por exemplo.

Ainda Prodi e a Conferência sobre Antisemitismo na Europa
 Romano Prodi
Romano Prodi voltou atrás com a decisão de cancelar a conferência sobre antisemitismo na Europa. Depois da birra (ver post anterior) o bom-senso prevaleceu e a reconciliação com os líderes judaicos que assinaram o já famoso artigo no Financial Times (ver post anterior) parece ser uma questão de dias.
Na sequência da decisão anterior de Prodi, o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Franco Frattini, manifestou ao Congresso Mundial Judaico disponibilidade para realizar a conferência, caso se mantivesse a posição do comissário. Frattini foi mesmo ao ponto de afirmar que o cancelamento da conferência sobre o antisemitismo na Europa era uma "criancice" da parte de Romano Prodi. A Alemanha prontificara-se também a servir de anfitriã à conferência.